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Restos da batata e do café dão origem a plástico mais sustentável

Falámos com Idalina Gonçalves, investigadora do CICECO – Instituto de Materiais de Aveiro, sobre o projeto BIOCOATING.

3 de Setembro 2026 | Notícias

Peles de abacate, borras de café e resíduos do processamento da batata podem transformar-se em revestimentos para embalagens de papel, substituindo plásticos de origem fóssil. Falámos com Idalina Gonçalves, investigadora do CICECO – Instituto de Materiais de Aveiro, sobre o projeto BIOCOATING, cofinanciado pelo COMPETE 2030.

Todos os anos, a indústria alimentar produz toneladas de subprodutos pouco valorizados — cascas, borras, lamas ricas em amido — que acabam, na maioria dos casos, por ser descartados. O BIOCOATING propõe-se dar-lhes um novo destino: transformá-los em bioplásticos capazes de revestir embalagens de papel, substituindo plásticos de origem fóssil e conferindo, ao mesmo tempo, propriedades antioxidantes e de proteção UV relevantes para a conservação de alimentos. O projeto junta a Universidade de Aveiro, responsável pelo desenvolvimento científico, à ISOLAGO EUROPE e à Gráfica Ideal, que testam estas soluções em condições próximas das da indústria.

Para perceber como nasceu o projeto, o que o torna diferenciador e que balanço se pode já fazer, entrevistámos Idalina Gonçalves, Investigadora Principal do BIOCOATING e Investigadora Auxiliar no Departamento de Engenharia de Materiais e Cerâmica da Universidade de Aveiro.

  • Como nasceu o projeto?

O BIOCOATING nasceu na continuidade do trabalho que a nossa equipa vinha a desenvolver na valorização de subprodutos da indústria alimentar, em particular de lamas ricas em amido provenientes do processamento da batata. Esse trabalho permitiu demonstrar que estas matérias-primas, apesar de serem muito heterogéneas e pouco valorizadas, podiam ser transformadas em materiais com comportamento termoplástico. Ao mesmo tempo, percebemos que havia ainda um caminho importante a percorrer para obter filmes finos e materiais compatíveis com aplicações industriais. Surgiu, assim, a ideia de combinar diferentes subprodutos de origem vegetal e explorar a sua utilização no revestimento de embalagens de papel, procurando responder simultaneamente a dois problemas: a utilização de plásticos de origem fóssil neste tipo de embalagem e a necessidade de encontrar destinos de maior valor acrescentado para resíduos e subprodutos industriais. O projeto reúne competências complementares. A Universidade de Aveiro assegura o desenvolvimento científico e a caracterização dos materiais, a ISOLAGO EUROPE contribui com a sua experiência na produção de compostos plásticos e a Gráfica Ideal permite avaliar a aplicação das formulações no revestimento de papel, em condições mais próximas das utilizadas pela indústria.

  • O que o torna diferenciador?

Um dos principais aspetos diferenciadores é a utilização de subprodutos vegetais não edíveis como matérias-primas para o desenvolvimento dos bioplásticos. Trabalhamos com resíduos do processamento da batata e do abacate, pele de prata e borras de café e aparas provenientes do corte de papel. Em vez de extrair e purificar apenas um componente, procuramos perceber de que forma a composição global de cada subproduto pode contribuir para as propriedades do material final. Outra particularidade é pretendermos que estes materiais não se limitem a funcionar como uma camada de revestimento. Queremos tirar partido dos compostos naturalmente presentes nos subprodutos para conferir aos bioplásticos propriedades ativas, nomeadamente capacidade antioxidante e proteção contra a radiação ultravioleta, que podem ser relevantes na conservação de determinados alimentos. O projeto acompanha ainda todo o percurso de desenvolvimento: começa na identificação e caracterização dos subprodutos, passa pela produção de granulados e filmes bioplásticos e termina com a sua aplicação no papel. Esta ligação entre o trabalho laboratorial e a validação industrial é essencial para perceber se as soluções desenvolvidas podem, no futuro, ser integradas nos processos já existentes nas empresas.

  • Que balanço faz até ao momento?

O balanço é positivo. O trabalho realizado permitiu conhecer melhor a composição e a variabilidade dos diferentes subprodutos e perceber como fatores como o teor de amido, fibras, lípidos ou compostos antioxidantes influenciam o processamento e as propriedades dos materiais. Já desenvolvemos diferentes formulações bioplásticas e verificámos que vários dos subprodutos podem ser incorporados em quantidades relevantes. Obtivemos materiais com características mecânicas, de superfície e de atividade antioxidante distintas, o que nos ajuda agora a identificar as combinações mais adequadas para cada função. Também foi possível aplicar algumas das formulações sobre papel e confirmar a sua aderência ao substrato, um primeiro passo importante para a aplicação prevista no projeto. Estes resultados mostram, contudo, que não existe uma solução única. Cada subproduto tem uma composição química e um comportamento próprios, e uma formulação que apresenta uma boa atividade antioxidante pode não ser necessariamente a mais fácil de processar ou a que oferece o melhor desempenho como revestimento. O desafio atual passa, por isso, por encontrar o melhor equilíbrio entre processabilidade, propriedades funcionais e compatibilidade com o papel. Estamos agora a concentrar o trabalho nas formulações mais promissoras, com o objetivo de consolidar os resultados obtidos à escala laboratorial e avançar para condições de processamento mais próximas das utilizadas na indústria. Ainda há trabalho de otimização pela frente, mas os resultados alcançados confirmam o potencial da abordagem e dão-nos uma base sólida para as próximas etapas do projeto.

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