Restos da batata e do café dão origem a plástico mais sustentável
Falámos com Idalina Gonçalves, investigadora do CICECO – Instituto de Materiais de Aveiro, sobre o projeto BIOCOATING.
Resíduos de casca de camarão estão no centro de investigação que visa criar ingredientes para produtos de cuidados da pele e do cabelo.

Resíduos de casca de camarão estão no centro de uma investigação que procura criar ingredientes para produtos de cuidados da pele e do cabelo.
Do desperdício à criação de valor
E se os resíduos da indústria do pescado pudessem ganhar uma segunda vida? É esta a oportunidade explorada pelo Shrimp4NanoCosmetics, projeto liderado pela Mesosystem e cofinanciado pelo COMPETE 2030.
A iniciativa parte de resíduos de casca de camarão resultantes do processamento de marisco. Em vez de serem encarados apenas como desperdício, estes materiais passam a ser estudados como fonte de compostos com potencial para a indústria cosmética.
O projeto procura desenvolver processos de extração eficazes e mais sustentáveis. O objetivo é obter biocompostos como astaxantina, quitina, quitosano e N-derivados.
Estes compostos apresentam propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias e antimicrobianas. Por isso, podem assumir um papel relevante no desenvolvimento de novos ingredientes para cuidados da pele e do cabelo.
“O projeto consubstancia uma abordagem inovadora na interseção entre biotecnologia marinha, nanotecnologia e cosmética de elevado valor acrescentado”, explica Bernardo Bastos, responsável pelo projeto na Mesosystem.
A aposta combina, assim, investigação e economia circular. Ao mesmo tempo, procura criar novas utilizações para recursos que atualmente são considerados subprodutos da indústria transformadora de pescado.
Ingredientes que chegam à pele e ao cabelo
Depois da extração, os compostos serão estudados e adequados para integração em novas formulações. A nanotecnologia terá um papel importante neste processo.
A equipa irá explorar soluções que permitam incorporar os ingredientes em produtos cosméticos com características diferenciadoras. Entre as tecnologias em estudo estão nanopartículas lipídicas e soluções à base de quitosano.
Esta combinação pretende potenciar o desempenho dos ingredientes e aumentar as possibilidades de aplicação. Além disso, abre caminho ao desenvolvimento de produtos de maior valor acrescentado.
Segundo Bernardo Bastos, a integração de metodologias químicas, enzimáticas e mecânicas com tecnologias nanotecnológicas permitirá criar “ingredientes diferenciadores, com elevado potencial de escalabilidade e aplicabilidade em formulações cosméticas premium”.
O projeto prevê o desenvolvimento de três formulações. Uma será um sérum em formato hidrogel com propriedades antienvelhecimento.
As restantes serão direcionadas para a pele e o cabelo. Ambas terão o quitosano como base e procuram explorar novas possibilidades para os cuidados cosméticos.
Uma cadeia de valor mais circular
A valorização dos resíduos de casca de camarão é um dos principais elementos diferenciadores da iniciativa.
Através deste processo, um subproduto da indústria do pescado pode transformar-se numa matéria-prima para uma nova cadeia de valor. Consequentemente, o projeto aproxima a indústria do conceito de economia circular.
A abordagem permite ainda explorar matérias-primas de origem natural. Paralelamente, promove a ligação entre setores com competências tecnológicas complementares.
O Shrimp4NanoCosmetics cruza biotecnologia marinha, processos avançados de extração, nanotecnologia e desenvolvimento de ingredientes. Desta forma, procura transformar conhecimento científico em novas aplicações industriais.
Norte e Açores unidos pela investigação
A Mesosystem lidera o projeto em parceria com três entidades do sistema científico e tecnológico: a Universidade dos Açores, o REQUIMTE e o UCIBIO/FFUP.
O consórcio reúne competências do Norte de Portugal e da Região Autónoma dos Açores. Cada parceiro contribui com conhecimento especializado para diferentes fases do desenvolvimento.
As entidades científicas envolvidas têm experiência em novas tecnologias de extração e desenvolvimento de ingredientes cosméticos de base nanotecnológica. Acrescentam ainda conhecimento na transferência de tecnologia para o tecido empresarial.
Esta articulação pretende reforçar um ecossistema dedicado à investigação, desenvolvimento, produção e comercialização de novas soluções. Ao mesmo tempo, cria pontes entre ciência e atividade económica.
Uma aposta para chegar aos mercados internacionais
Para a Mesosystem, o projeto representa também uma oportunidade de diversificação. “Este projeto constitui uma alavanca estratégica para a diversificação do portefólio da Mesosystem”, sublinha Bernardo Bastos.
A empresa pretende desenvolver novas linhas de produtos sustentáveis e tecnologicamente diferenciados. O objetivo passa ainda por reforçar a sua presença em mercados internacionais.
A investigação deverá contribuir para incorporar conhecimento científico na estratégia de inovação da empresa. Segundo o responsável, o projeto permite igualmente “fortalecer a internalização de conhecimento crítico” e consolidar as parcerias com entidades do sistema científico e tecnológico.
O apoio do COMPETE 2030 assume, neste contexto, um papel determinante. “Tem sido determinante para a concretização desta agenda de inovação”, afirma Bernardo Bastos.
O financiamento permite avançar com soluções de maior risco tecnológico e acelerar a passagem da investigação aplicada para aplicações industriais. Ao mesmo tempo, reforça a capacidade competitiva da empresa.
O Shrimp4NanoCosmetics mostra, assim, como um resíduo pode tornar-se ponto de partida para novos produtos. Entre a investigação, a sustentabilidade e o mercado, o projeto procura transformar recursos do mar em oportunidades para a indústria.
Links úteis
Universidade dos Açores | Website
REQUIMTE – Rede de Química e Tecnologia | Website
UCIBIO – Unidade de Biociências Moleculares Aplicadas | Website
FFUP – Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto | Website
10 de Setembro 2026