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Falámos com Idalina Gonçalves, investigadora do CICECO – Instituto de Materiais de Aveiro, sobre o projeto BIOCOATING.
Compostos de algas, esponjas marinhas e moléculas farmacológicas juntam-se à nanotecnologia para transformar a forma de cuidar da pele.

Compostos de algas, esponjas marinhas e moléculas farmacológicas juntam-se à nanotecnologia num projeto que quer transformar a forma de cuidar da pele.
A ciência como ponto de partida
O envelhecimento da pele é um processo natural, mas a investigação procura novas formas de intervir nos mecanismos que lhe estão associados. É neste desafio que se posiciona o AgeTech, projeto liderado pela Mesosystem e cofinanciado pelo COMPETE 2030.
A iniciativa aposta na investigação de novos compostos capazes de atuar ao nível celular. O objetivo passa por desenvolver formulações cosméticas com propriedades regenerativas, antioxidantes e anti-inflamatórias.
Para isso, o projeto cruza diferentes áreas de conhecimento. “O projeto AgeTech materializa uma estratégia avançada de I&D na interseção entre biotecnologia, ciência translacional e desenvolvimento de cosméticos de elevada performance”, explica Bernardo Bastos, responsável pelo projeto na Mesosystem.
A investigação parte de duas bibliotecas de compostos. Uma reúne moléculas farmacológicas previamente aprovadas para outras utilizações. A outra inclui compostos biológicos provenientes de algas e esponjas marinhas.
Esta combinação abre espaço à descoberta de novos ativos para aplicação cosmética. Além disso, valoriza recursos marinhos e aproxima diferentes competências científicas e tecnológicas.
Do mar para a pele
Os compostos selecionados serão incorporados nas formulações através de tecnologias de nanoencapsulação. A abordagem pretende melhorar a forma como os ativos chegam à pele e prolongar a sua ação.
A tecnologia poderá ainda aumentar a estabilidade dos produtos. Consequentemente, os compostos poderão ser libertados de forma prolongada, mantendo a sua atuação durante mais tempo.
Segundo Bernardo Bastos, estes sistemas de entrega permitem “potenciar a estabilidade, biodisponibilidade e eficácia funcional destes ativos em formulações cosméticas de última geração”.
O projeto prevê o desenvolvimento de três formulações complementares. Juntas, irão integrar um pack de tratamento antienvelhecimento.
A ambição vai, contudo, além da redução dos sinais visíveis do envelhecimento. O AgeTech procura estimular mecanismos celulares relacionados com a regeneração e o rejuvenescimento da pele.
Uma aposta conjunta entre Norte e Algarve
A Mesosystem lidera o projeto em parceria com a Universidade do Algarve e o ABC CoLAB. O consórcio reúne, assim, uma empresa especializada em ingredientes e formulações cosméticas e entidades do sistema de investigação e inovação.
Cada parceiro contribui com competências distintas. A Universidade do Algarve e o ABC CoLAB acrescentam conhecimento sobre os mecanismos celulares e moleculares associados ao envelhecimento.
Ao mesmo tempo, a iniciativa aproxima as regiões Norte e Algarve. Pretende criar uma rede capaz de dinamizar a investigação, produção, comercialização e disseminação de novas soluções cosméticas.
Esta dimensão colaborativa é particularmente relevante para uma área que exige conhecimento científico, capacidade tecnológica e proximidade à indústria.
Da investigação ao mercado
O desenvolvimento do AgeTech está organizado em várias fases. Primeiro, serão selecionados e caracterizados compostos com potencial regenerativo, antioxidante, anti-inflamatório e de rejuvenescimento.
Depois, serão desenvolvidas três formulações à escala laboratorial. Numa terceira etapa, estas soluções serão avaliadas em termos de eficácia e segurança, através de estudos in vitro e in vivo.
A validação em ambiente industrial terá igualmente um papel central. Permitirá testar a escalabilidade das soluções e aproximar os resultados de investigação das condições reais de produção.
Para a Mesosystem, esta passagem do conhecimento à aplicação industrial é estratégica. “O projeto constitui uma alavanca crítica para a expansão do portefólio em segmentos premium de cosmética antienvelhecimento”, afirma Bernardo Bastos.
A empresa pretende, desta forma, reforçar uma estratégia assente em inovação própria. O objetivo passa por desenvolver soluções “com elevado potencial de diferenciação e escalabilidade”.
Menos risco, mais inovação
O apoio do COMPETE 2030 assume uma importância relevante neste percurso. O financiamento permite avançar com investigação de maior complexidade e reduzir a incerteza associada ao desenvolvimento de novas soluções.
Na perspetiva de Bernardo Bastos, o apoio é “estruturante” para o projeto. Permite “mitigar o risco tecnológico” e acelerar a passagem do conhecimento científico para aplicações industriais.
O AgeTech procura, assim, transformar investigação em produtos com potencial económico. Ao combinar biotecnologia, recursos marinhos e nanotecnologia, cria uma ponte entre ciência e mercado.
A aposta insere-se ainda nas prioridades das estratégias nacional e regional de especialização inteligente. Consequentemente, contribui para reforçar um ecossistema de inovação com capacidade de gerar produtos diferenciados e de maior valor acrescentado.
O desafio está agora em levar os resultados do laboratório para a indústria. Se o conseguir, o AgeTech poderá colocar ciência, mar e tecnologia ao serviço de uma nova geração de cuidados para a pele.
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10 de Setembro 2026