Restos da batata e do café dão origem a plástico mais sustentável
Falámos com Idalina Gonçalves, investigadora do CICECO – Instituto de Materiais de Aveiro, sobre o projeto BIOCOATING.
Solução nacional combina moléculas bioinspiradas e nanotecnologia para prolongar a proteção de estruturas marítimas.

Uma solução desenvolvida em Portugal combina moléculas bioinspiradas e nanotecnologia para prolongar a proteção de estruturas marítimas e reduzir o impacto ambiental.
Um problema que pesa no mar
Há organismos que encontram nas estruturas marítimas um lugar para se fixar. O problema é que essa presença pode sair cara.
A bioincrustação marinha acumula organismos em superfícies submersas, aumentando o peso e o atrito de navios e infraestruturas. Consequentemente, aumenta também a energia necessária para garantir a sua movimentação e operacionalidade.
Além disso, a proteção destas estruturas exige operações regulares de manutenção e substituição de revestimentos. Para os proprietários, isso significa custos elevados e períodos de inatividade.
É neste desafio que entra o NanoBioEscudo, projeto cofinanciado pelo COMPETE 2030. A iniciativa procura desenvolver uma nova geração de aditivos para revestimentos marítimos, mais eficazes, duradouros e amigos do ambiente.
A ambição passa por mudar a forma como estes revestimentos combatem a bioincrustação.
A natureza como ponto de partida
A resposta está em moléculas bioinspiradas com propriedades antifouling. Estas moléculas são imobilizadas em materiais nano e biomateriais capazes de controlar a sua libertação ao longo do tempo.
A ideia é simples na sua lógica, mas exigente na execução. Em vez de uma libertação rápida dos compostos ativos, o sistema pretende disponibilizá-los de forma controlada.
Assim, a proteção pode manter-se eficaz durante mais tempo. Ao mesmo tempo, reduz-se o risco associado ao lixiviamento precoce dos biocidas utilizados nos revestimentos convencionais.
“Uma espécie de escudo para limitar a proliferação da bioincrustação marinha”, descreve Frederico Maia, Diretor Geral da Smallmatek – Small Materials and Technologies.
O desafio passa, contudo, por encontrar um equilíbrio entre eficácia e sustentabilidade. “É necessário combinar o elevado desempenho na ação antifouling dos materiais e garantir a sua sustentabilidade ambiental”, explica.
Ou seja, a solução deve combater os organismos responsáveis pela incrustação sem afetar organismos marinhos não-alvo.
Ciência e indústria lado a lado
Para responder a este desafio, o NanoBioEscudo reúne quatro parceiros com competências distintas.
A Smallmatek, enquanto empresa promotora, contribui com conhecimento em nanotecnologia e revestimentos. Já a Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto participa através da sua experiência em bioprospecção e síntese de moléculas bioinspiradas protegidas por patente.
A Universidade de Aveiro acrescenta competências na síntese e caracterização de materiais biogénicos, microbiologia e ecotoxicologia. Por sua vez, o CIIMAR assegura a avaliação da eficácia antifouling em ambiente laboratorial controlado e em condições reais.
A complementaridade é uma das forças do projeto. As equipas acompanham diferentes fases do desenvolvimento, desde a criação das moléculas até à sua incorporação nos revestimentos.
O processo inclui ainda a avaliação da eficácia, do impacto ambiental e da ecotoxicidade, bem como diferentes técnicas de imobilização e encapsulamento.
“Este projeto é constituído por quatro equipas complementares”, destaca Frederico Maia, que sublinha a experiência conjunta nas várias áreas necessárias ao desenvolvimento da solução.
Mais proteção, menos impacto
A proposta procura, portanto, responder a dois problemas em simultâneo.
Por um lado, pretende prolongar a eficácia dos revestimentos marítimos. Por outro, procura reduzir os impactos associados à libertação precoce de substâncias no ambiente marinho.
Os ganhos esperados estendem-se também à operação das estruturas. Uma proteção mais duradoura poderá significar menos intervenções de manutenção, menor inatividade e redução dos custos associados à substituição dos revestimentos.
Além disso, ao limitar a acumulação de organismos, a solução poderá contribuir para reduzir o peso e o atrito das estruturas marítimas. Consequentemente, poderá também diminuir o consumo energético necessário à sua operação.
Reduzir o risco para levar a inovação mais longe
Para uma PME como a Smallmatek, desenvolver uma tecnologia desta natureza implica enfrentar um elevado grau de incerteza.
É precisamente aqui que o financiamento europeu assume um papel determinante. Segundo Frederico Maia, o apoio do COMPETE permite aproximar empresas e academia e reduzir o risco associado a projetos tecnológicos complexos.
“Este projeto só é possível com o apoio do COMPETE”, afirma o responsável.
A importância do financiamento torna-se ainda mais evidente perante o nível de maturidade tecnológica do projeto. “Sem este tipo de apoios seria praticamente impossível apostar em operações de alto risco e baixo TRL”, acrescenta.
O NanoBioEscudo procura, assim, levar uma combinação de ciência, nanotecnologia e conhecimento sobre o meio marinho para uma nova geração de revestimentos.
O objetivo é ambicioso: proteger melhor as estruturas marítimas, durante mais tempo e com menor impacto ambiental. E, ao mesmo tempo, transformar uma necessidade de manutenção numa oportunidade para inovar.
Links úteis
Smallmatek – Small Materials and Technologies | Website
Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto | Website
Universidade de Aveiro | Website
CIIMAR – Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental | Website
10 de Setembro 2026