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Resíduos industriais ganham nova vida como matérias-primas para a cerâmica

O projeto UP4Green está a transformar resíduos industriais em novas matérias-primas, abrindo caminho a uma cerâmica mais circular e sustentável.

4 de Junho 2026 | Notícias

O projeto demonstrador UP4Green resulta de um consórcio entre a RECER e o CTCV, cofinanciado pelo COMPETE 2030, e tem como objetivo desenvolver e validar industrialmente novas composições de pastas cerâmicas sustentáveis para grés porcelânico. O projeto aposta na incorporação de elevados teores de resíduos e subprodutos industriais, procurando demonstrar a viabilidade técnica e industrial da sua utilização em produto real, sem comprometer o desempenho, a estabilidade produtiva e a qualidade final do material cerâmico.

Tendo por base os resultados obtidos em projetos de I&D desenvolvidos anteriormente pela RECER, em consórcio com outras entidades do Sistema científico e tecnológico, este projeto irá promover a criação de um demonstrador do conhecimento desenvolvido nestes projetos.

Uma nova geração de pastas cerâmicas

A indústria cerâmica enfrenta atualmente um duplo desafio. Por um lado, necessita de reduzir o consumo de matérias-primas naturais e a dependência de recursos minerais cada vez mais escassos e pressionados. Por outro, é obrigada a responder a metas ambientais e energéticas cada vez mais exigentes, sem perder competitividade industrial nem qualidade técnica.

É neste contexto que surge o projeto UP4Green. A iniciativa aposta no desenvolvimento de novas formulações cerâmicas capazes de incorporar resíduos industriais valorizados, transformando materiais anteriormente considerados desperdício em componentes funcionais de elevado valor técnico.

O objetivo central do projeto passa por aumentar significativamente a circularidade na indústria cerâmica, promovendo a reincorporação de resíduos e subprodutos em pastas destinadas à produção de pavimentos cerâmicos.

Resíduos como matéria-prima tecnológica

Ao contrário de uma visão simplista dos resíduos enquanto meros enchimentos inertes, o projeto parte de uma abordagem técnico-científica muito mais exigente. Cada resíduo possui uma composição mineralógica e química própria, capaz de influenciar diretamente o comportamento da pasta durante as etapas de moagem, atomização, prensagem e cozedura.

O UP4Green estuda a utilização de diferentes fluxos residuais industriais, nomeadamente resíduos cerâmicos, subprodutos minerais e materiais ricos em fases inertes e fundentes provenientes das indústrias extrativa, metalúrgica e transformadora. O objetivo é compreender de que forma estes materiais podem substituir parcialmente matérias-primas naturais tradicionais, como feldspatos, areias, caulinos e determinados componentes argilosos.

Desenvolvimento adaptado à realidade industrial

Uma das características diferenciadoras do projeto UP4Green é o facto de o desenvolvimento ser realizado em condições próximas da realidade industrial da cerâmica plana portuguesa.

As novas formulações são estudadas para ciclos rápidos de cozedura, típicos da produção moderna de grés porcelânico, em fornos de rolos com tempos reduzidos e temperaturas elevadas.

Segundo Nelson Marques, responsável do projeto, “o grande desafio do UP4Green não passa apenas por incorporar resíduos, mas por conseguir fazê-lo mantendo estabilidade industrial, qualidade técnica e repetibilidade produtiva em ciclos rápidos de fabrico”. Destaca ainda que “cada resíduo introduz novas variáveis mineralógicas, químicas e térmicas no sistema cerâmico, sendo necessário compreender profundamente o seu comportamento para garantir viabilidade industrial”.

Economia circular aplicada à indústria cerâmica

O UP4Green procura demonstrar que a economia circular pode deixar de ser apenas um conceito ambiental para se afirmar como uma solução industrial tecnicamente viável.

A valorização de resíduos permite reduzir o consumo de matérias-primas virgens, diminuir a deposição em aterro e minimizar o impacto ambiental associado à extração e ao transporte de recursos minerais. Simultaneamente, cria novas oportunidades para integrar fluxos residuais de diferentes setores industriais numa cadeia de valor com elevada incorporação tecnológica.

O projeto contribui ainda para reduzir a pegada carbónica associada à produção cerâmica, não apenas através da substituição de matérias-primas naturais, mas também pelo potencial impacto energético de algumas formulações, nomeadamente através da otimização dos mecanismos de sinterização e densificação.

Inovação para uma indústria mais sustentável

O projeto UP4Green reforça a aposta da indústria cerâmica portuguesa em soluções tecnológicas avançadas e ambientalmente responsáveis. O conhecimento gerado poderá contribuir para novos modelos produtivos mais sustentáveis e menos dependentes de matérias-primas naturais críticas.

Para Nelson Marques, o apoio do COMPETE 2030 assume um papel determinante: “Projetos desta natureza exigem desenvolvimento técnico intensivo, ensaios industriais e investigação aplicada contínua. O incentivo do COMPETE 2030 é fundamental para acelerar a concretização da inovação. A partilha do risco associado à migração de resultados experimentais para modelos produtivos reais — neste caso mais circulares e sustentáveis — é absolutamente decisiva.”

Com iniciativas como o UP4Green, a indústria demonstra que a valorização de resíduos pode deixar de ser apenas uma necessidade ambiental para passar a constituir uma verdadeira oportunidade tecnológica e industrial.

Links

RECER | Website

CTCV | Website

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