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O mar como nova fonte para a cosmética

Resíduos de casca de camarão estão no centro de investigação que visa criar ingredientes para produtos de cuidados da pele e do cabelo.

10 de Setembro 2026 | Notícias

Resíduos de casca de camarão estão no centro de uma investigação que procura criar ingredientes para produtos de cuidados da pele e do cabelo.

Do desperdício à criação de valor

E se os resíduos da indústria do pescado pudessem ganhar uma segunda vida? É esta a oportunidade explorada pelo Shrimp4NanoCosmetics, projeto liderado pela Mesosystem e cofinanciado pelo COMPETE 2030.

A iniciativa parte de resíduos de casca de camarão resultantes do processamento de marisco. Em vez de serem encarados apenas como desperdício, estes materiais passam a ser estudados como fonte de compostos com potencial para a indústria cosmética.

O projeto procura desenvolver processos de extração eficazes e mais sustentáveis. O objetivo é obter biocompostos como astaxantina, quitina, quitosano e N-derivados.

Estes compostos apresentam propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias e antimicrobianas. Por isso, podem assumir um papel relevante no desenvolvimento de novos ingredientes para cuidados da pele e do cabelo.

“O projeto consubstancia uma abordagem inovadora na interseção entre biotecnologia marinha, nanotecnologia e cosmética de elevado valor acrescentado”, explica Bernardo Bastos, responsável pelo projeto na Mesosystem.

A aposta combina, assim, investigação e economia circular. Ao mesmo tempo, procura criar novas utilizações para recursos que atualmente são considerados subprodutos da indústria transformadora de pescado.

Ingredientes que chegam à pele e ao cabelo

Depois da extração, os compostos serão estudados e adequados para integração em novas formulações. A nanotecnologia terá um papel importante neste processo.

A equipa irá explorar soluções que permitam incorporar os ingredientes em produtos cosméticos com características diferenciadoras. Entre as tecnologias em estudo estão nanopartículas lipídicas e soluções à base de quitosano.

Esta combinação pretende potenciar o desempenho dos ingredientes e aumentar as possibilidades de aplicação. Além disso, abre caminho ao desenvolvimento de produtos de maior valor acrescentado.

Segundo Bernardo Bastos, a integração de metodologias químicas, enzimáticas e mecânicas com tecnologias nanotecnológicas permitirá criar “ingredientes diferenciadores, com elevado potencial de escalabilidade e aplicabilidade em formulações cosméticas premium”.

O projeto prevê o desenvolvimento de três formulações. Uma será um sérum em formato hidrogel com propriedades antienvelhecimento.

As restantes serão direcionadas para a pele e o cabelo. Ambas terão o quitosano como base e procuram explorar novas possibilidades para os cuidados cosméticos.

Uma cadeia de valor mais circular

A valorização dos resíduos de casca de camarão é um dos principais elementos diferenciadores da iniciativa.

Através deste processo, um subproduto da indústria do pescado pode transformar-se numa matéria-prima para uma nova cadeia de valor. Consequentemente, o projeto aproxima a indústria do conceito de economia circular.

A abordagem permite ainda explorar matérias-primas de origem natural. Paralelamente, promove a ligação entre setores com competências tecnológicas complementares.

O Shrimp4NanoCosmetics cruza biotecnologia marinha, processos avançados de extração, nanotecnologia e desenvolvimento de ingredientes. Desta forma, procura transformar conhecimento científico em novas aplicações industriais.

Norte e Açores unidos pela investigação

A Mesosystem lidera o projeto em parceria com três entidades do sistema científico e tecnológico: a Universidade dos Açores, o REQUIMTE e o UCIBIO/FFUP.

O consórcio reúne competências do Norte de Portugal e da Região Autónoma dos Açores. Cada parceiro contribui com conhecimento especializado para diferentes fases do desenvolvimento.

As entidades científicas envolvidas têm experiência em novas tecnologias de extração e desenvolvimento de ingredientes cosméticos de base nanotecnológica. Acrescentam ainda conhecimento na transferência de tecnologia para o tecido empresarial.

Esta articulação pretende reforçar um ecossistema dedicado à investigação, desenvolvimento, produção e comercialização de novas soluções. Ao mesmo tempo, cria pontes entre ciência e atividade económica.

Uma aposta para chegar aos mercados internacionais

Para a Mesosystem, o projeto representa também uma oportunidade de diversificação. “Este projeto constitui uma alavanca estratégica para a diversificação do portefólio da Mesosystem”, sublinha Bernardo Bastos.

A empresa pretende desenvolver novas linhas de produtos sustentáveis e tecnologicamente diferenciados. O objetivo passa ainda por reforçar a sua presença em mercados internacionais.

A investigação deverá contribuir para incorporar conhecimento científico na estratégia de inovação da empresa. Segundo o responsável, o projeto permite igualmente “fortalecer a internalização de conhecimento crítico” e consolidar as parcerias com entidades do sistema científico e tecnológico.

O apoio do COMPETE 2030 assume, neste contexto, um papel determinante. “Tem sido determinante para a concretização desta agenda de inovação”, afirma Bernardo Bastos.

O financiamento permite avançar com soluções de maior risco tecnológico e acelerar a passagem da investigação aplicada para aplicações industriais. Ao mesmo tempo, reforça a capacidade competitiva da empresa.

O Shrimp4NanoCosmetics mostra, assim, como um resíduo pode tornar-se ponto de partida para novos produtos. Entre a investigação, a sustentabilidade e o mercado, o projeto procura transformar recursos do mar em oportunidades para a indústria.

Links úteis

Website Mesosystem

Universidade dos Açores | Website

REQUIMTE – Rede de Química e Tecnologia | Website

UCIBIO – Unidade de Biociências Moleculares Aplicadas | Website

FFUP – Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto | Website

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